"Did I see a moment with you
In a half lit world
I'm frightened to believe
But I must try
If I stumble if I fall
I'm reaching out in this mourning air.."
E enquanto o celular proclama Mourning Air, todo o resto se cala. A chuva, o limpador, o trânsito. As buzinas. Seu coração. Lia observa atenta o celular, completamente sem reação. A música segue tocando, e a chuva começa a sair por seus olhos.
A chuva volta. O limpador. O trânsito e as buzinas. Por fim, seu coração, ainda que com um pulso desagradavel, pois o celular parara de tocar. Lia secava o rosto com o lenço do porta-luvas. Talvez tudo fosse parar novamente, mas não conseguiria reconhecer o perfume dele com todo aquele ar pesado monopolizando suas narinas.
Lia resolveu ligar.
Um. Dois. Três. Quatro toques. Ele não iria atender? Cinco toques. Teria ligado por engano? Seis.
"Alô." A voz grave, o sotaque acentuado.
"O-oi.." O que fazer? O que dizer? Era uma criança novamente. Presa em um momento imprescindível, dopada com o ar pesado, já vicioso em seu respirar, ar já respirado por alguns minutos naquele carro fechado.
"Eu tenho tanta saudade, Lia. Ver as ruas, os parques, as pessoas, tudo é tão difícil, todos tem o teu cheiro, tua face. Em minha memória, tudo lentamente se mistura, formando uma massa amorfa que não cansa em falar teu nome."
Respirou fundo. O ar pesado havia de lhe dar alguma sensação que a distraísse da chuva que insistia em tentar sair por seus olhos.
"Es-escuta.. Não adianta mais. Já acabou. O erro já foi feito. Não foi meu, talvez não tenha sido teu, mas tu não impediu que ele acontecesse. Me deixou cair do ninho sem saber voar, e agora que eu aprendi, não quero mais viver em um ninho sem asas, indefesa e arriscando cair novamente"
Começou a se sentir tonta. Seria a coragem para mentir tudo isso? Seria o ar pesado, como a fumaça de um cigarro, beijando seus alvéolos?
"Tá tudo tão difícil, Lia. Lucas pergunta todo dia pela mãe, e eu não consigo mais mentir. Aonde tu está? Achou alguém novo? Não é só... quer.. de.. ti"
Começava a não conseguir entender direito o que ele falava. Sua audição começava a não funcionar mais. Lia começava a se desprender de tudo. De seu carro. Seu emprego. Suas músicas. Seus gostos, prazeres e costumes. Sua casa, seus amigos. Por Deus, até de seu filha Lia se desprendia e abstraía. Mas ele não saía. Por algum infame neurônio teimoso, ele se mantinha nítido e constante em sua mente.
"Eu te amo. A verdade é que eu só soube voar quando estava contigo. Quando tu me deixou, eu desaprendi a voar. Comecei a cair e me segurei nos vícios mundanos, que como galhos apareceram no caminho. Desaprendi a ser uma mãe, e tive vergonha demais para conseguir ver Lucas. Fala pra ele que a mamãe sente muito. Eu te amo, e por favor, não te lembra de mim assim."
Ar pesado.
Janelas fechadas.
Escuro.
Ele.
Nada.
Eram apenas onze e meia, mas parecia ser muito mais tarde. Era o tipo de noite que, se por acaso minha vida fosse um filme de terror, alguma coruja estaria piando tetricamente agora, ou talvez começasse a chover após um raio clichê. Na verdade, isso já havia acontecido. Não o raio, mas caia uma leve chuva de verão. De qualquer forma, o tipo de filme que me vinha a cabeça não poderia acontecer no meio de uma cidade, o ambiente urbano era familiar demais pra assustar alguém.
Havia algo de sensacional em caminhar na chuva sem se importar em se molhar. Naquele dia, especialmente, era tudo que eu precisava fazer. Caminhar na chuva sem me importar em me molhar. Talvez a chuva houvesse de lavar toda a sujeira que aconteceria essa noite. Vesti os coturnos e coloquei o sobretudo. Eu certamente pareceria da KGB (ainda mais com essa barba que a preguiça não me permite fazer), não fosse essa uma moda jovem qualquer. Era como eu me vestia quando era jovem. Todos nós. Saiamos pela rua com uma onipotência comprada em uma loja de butique, com uma grana que nem sei da onde os nossos pais tiraram, embora aquilo nunca tivesse pesado em nossas consciências na época. Éramos tudo o que se vê nos filmes. Amigos inseparáveis, todos vivendo o que apenas nós poderíamos viver. Crescemos, perdemos o contato e eu acabei vindo morar aqui, nessa cidade tão comum. Tão comum quanto uma cidade do sul da Itália possa parecer pra um jovem mexicano. Não houve uma despedida calorosa, não fizemos uma festa de despedida onde enchemos a cara pela despedida. Nem nos falávamos mais. Não sei se foi melhor assim, ou não, mas não gostava da idéia da minha vida acontecendo como nas histórias.
Acendi um cigarro e resolvi tomar uma dose de tequila antes de sair. Eu fumo desde os 12 anos, não me lembro mais nem por que comecei, mas também não consigo pensar em um motivo pra parar. De qualquer forma, eu sei por que fumo hoje
Há quem acredite que a Europa é um lugar perfeito pra se arranjar na vida. Aqui, basta você ser descendente de europeus, e lugares irão implorar pra você trabalhar com eles. Bem, não é assim. Eu passei fome nos primeiros três meses que passei aqui. Entro na estação. As pessoas têm preconceito por eu ser mexicano, os patrões não querem perder clientela e eu trabalhei em lugares fedidos e miúdos por preços ainda mais miúdos. Conheci Luigi em um desses lugares. Ele não tinha cara de muitos amigos, mas resolveu conversar comigo. Perguntou por que eu havia vindo pra cá. Quanto eu ganhava, como me tratavam. Compro o ticket. Parecia estar preocupado, o que era algo que eu definitivamente não estava preparado pra presenciar. Veio beber nas 3 noites seguintes e saber mais sobre mim. Entro no trem. Na quarta noite, ele não sentou. Me mandou tirar o avental e acompanhar ele. Não respondi nada, apenas obedeci. Entramos em um opala muito bem cuidado e ele me levou pra uma casa perto da estrada. Era muito bonita a casa, e não trocamos uma palavra dentro do carro. Lá, eu fui apresentado a Agostino. Observo os outros passageiros com um olhar distante. Ele me ofereceu algo pra beber. Não me senti a vontade, mas achei que recusar poderia ser uma grosseria, então aceitei uma tequila. Conversamos sobre o tempo, futebol, coisas mundanas e então parecia que já havíamos trilhado todo caminho necessário pra ele me fazer o convite. Desço na estação que deveria. Eu estava de saco cheio de bares fedidos, de gente me julgando, e decidi aceitar, cogitando se isso daria a desagradável sensação de que minha vida é como nas histórias.
As pessoas já estão acostumadas conosco, mas ainda assim existe uma relação muito definida de respeito, que era um gosto novo pra mim, ao menos nesse solo italiano (mas talvez em solo mexicano também). É como se fosse uma relação de suserania e vassalagem, um respeito em troca de um favor. No nosso caso, MUITOS favores. Caminho por ruas escuras. Luigi e eu nos tornamos amigos por um favor. Ele me tirou da vida de merda que eu estava tendo, e eu retribuí livrando a cara dele de ser estragada por alguns muitos tiros. Entro no ônibus. Conheci a mulher dele, os irmãos, os amigos, com o tempo éramos quase como irmãos, afinal. Estou a uma parada de meu destino, e o ônibus está vazio. Mas Luigi sempre teve algo que me incomodava. Ele nunca soube admitir que eu havia lhe retribuído o favor. Era como se eu nunca fosse deixar de ser o vassalo da relação. Desço. Eu sempre pagava o que ele bebia quando saíamos, inúmeras vezes paguei prostitutas pelas quais ele babou, e quando eu não me sentia a vontade, ele fazia um grande escândalo sobre como irmãos não deveriam nunca virar as costas uns para os outros, e sobre como ele não havia virado para mim no infame momento em que ele me encontrou. Chego, enfim, na ponte.
Lá estava Luigi, baixinho e peculiar. Com seu cavanhaque bagaceiro e seu cabelo oleoso escondido embaixo de um chapéu-coco clichê.
"Buona sera, Alejandro!"
"Buona sera, Luigi..."
Lhe abraço e beijo-lhe a face, e me foi inevitável a referência bíblica, por mais comum que fosse esse costume aqui. Me pergunto se minha vida era mesmo um clichê.
"Trouxe o pacote, Luigi?"
"Não estaria aqui se não estivesse com ele, não?"
"..."
Agora certamente seria a parte mais difícil. Quando Luigi faz menção de pegar em seu bolso o pacote, coloco a minha mão sobre seu braço num gesto que pede por um momento.
"Eu acho que tenho umas coisas pra contar, Luigi."
"Tem? Então desembucha, cara."
"Bom, eu tenho muitas coisas pra te contar, sim. A primeira é a pior. Eu como a tua mulher há dois meses e o filho que vai nascer daqui há 4 meses não é teu. Ela não quer te largar, porque tem medo que tu faça merda, e eu não te contei antes porque também tinha. A segunda não é tão ruim quanto a primeira, mas ainda é uma pedrada, Luigi. O pacote que tu vai me entregar vai ser vendido pra concorrência, o que vai me render uma passagem pra um lugar bem longe daqui com a tua mulher e meu futuro filho. O dinheiro que eu ia te entregar pelo pacote, eu explico mais tarde aonde eu vou usar."
Nesse momento, Luigi estava com uma expressão indecifrável na cara. Se algum dia ele jogou poker com essa cara, ele provavelmente levou a mesa inteira. Ele abriu os lábios, esperou 5 segundos e então sibilou:
"Por que tu tá fazendo isso?"
"Ah, mas eu ainda não terminei, Luigi. Tem ainda a terceira coisa. A terceira não é ruim, talvez tu até tenha conhecimento. Ninguém gosta de ti na casa do Agostini. Tu já perdestes a tu era, as pessoas fazem piadas de ti pelas costas. Apostam sobre coisas idiotas que tu ainda não percebeu. Eu te defendi até certo ponto, Luigi, mas não é o suficiente, né? Por que eu tô fazendo isso? Porque não é o suficiente. Nunca é. Sabe pra quê que eu vou usar o dinheiro que eu ia te pagar? Pra te dar um enterro decente, Luigi, pra que o teu enterro seja patrocinado por mim, que até na tua morte, ainda te devo tudo."
Nesse momento, eu me dei conta de três coisas. A primeira, eu estava sendo clichê. A segunda, eu deixei as emoções me levarem, como prometi que não iria fazer, e a terceira, e pior coisa: Ele se deu conta que eu estava prestes a sacar o que eu havia esquecido em casa.
Resolvi ser rápido, saquei a arma e comecei o vulgar arquear de cotovelo pra encostar o cano nele, mas Luigi sentiu a situação e me desarmou com um grosso e seco soco na boca do estômago. Levemente caí no chão, enquanto Luigi tirava a arma de minha mão e apontava para minha cabeça.
"Eu sempre soube que tu era um ingrato, Alejandro. É do sangue do teu povo. Tu não sabes reconhecer nem mesmo teu irmão, que te tirou do lixo que te pagava caridades, que te tirou a fama de mexicano vagabundo e te colocou em um posto respeitado, como tanto querias. Tu me acusas de te cobrar demais, mas eu não cobro demais. Eu só cobrava o que era natural que eu cobrasse. Mas não vou mais cobrar, Alejandro. Agora, eu te farei o segundo grande favor da tua vida. Eu vou fazer que nem tu odeias, vou fazer que nem nas histórias. Eu vou te conceder um último desejo antes de morrer, Alejandro. Qualquer coisa que esteja ao meu dispor. Quer comer a vaca da minha mulher uma última vez? Ótimo. Quer escrever um testamento? Perfeito. Quer que eu não estrague tua cara? Pode ser. E então, o que vai ser, Judas?"
Eu não ouço muito bem o que Luigi está falando. Na verdade, eu nem mais estou na Itália. Eu estou em uma fábrica velha, com as mesmas roupas de agora, mas mais novas e bem cuidadas. Estou com eles, com quem eu nunca deveria ter deixado de estar. Estamos bebendo tequila e conversando sobre música. Somos cinco, mas poderíamos ser dois ou poderíamos ser dez. Cinco era apenas um detalhe. Eu estou no momento glorioso da minha vida, no solo que me ama e que eu nunca deveria ter deixado. Estou fumando, sem ainda nem saber tragar direito, mas adorando a sensação que invade minha cabeça. Adorando tudo e todos naquele momento. Ainda nem sabia por que fumava, mas fumava. Não sabia por que bebia, mas bebia. Não sabia por que existia, mas ah, como eu existia. Era perfeito e singular aquele momento, e nós nos perguntávamos quem iria morrer primeiro, que não teria de sentir a dor da perda, quem seria o último, que teria de ver todos os outros ficarem pra trás, e quando, então, esse poderia finalmente apagar de uma vez por todas? Nos perguntávamos como seriam as mães dos nossos filhos e com quantos anos será que as encontraríamos? Meus olhos se fecham lentamente e eu volto pra ponte, com Luigi, o irmão a quem eu nunca deixei de dever tudo. Embora não tivesse ouvido o que ele disse, sabia que ele havia me oferecido um último desejo. Eu me perguntava se eu era o primeiro, o que não sentiria a dor da perda. Se eu tivera tamanha sorte, dentro de tamanho azar?
Respirei fundo, e me lembrei por que eu fumo. Pedi um cigarro a Luigi e fiquei satisfeito com minha decisão. Era o ilustre momento que justificava o meu vício por todo esse tempo, eu não durei.
Eu não durei.
- Mood:
indescribable
- Quanto tempo, Jimmy!
- Quanto tempo, Bárbara.
Lucia fez o sorriso que sempre fazia quando estava prestes a me beijar, mas apenas sorriu.
-Veio me oferecer este belo copo de Whisky vazio?
Ela disse, sem partir o sorriso. Improvisei:
- Vim lhe convidar pra me acompanhar pra enchê-lo.
Ela topou. Fomos até o bar e perguntei:
- Que magnífica carreira publicitária levou minha veterana Lucy?
- Uma não-tão-magnífica-assim carreira de jornalista em um zine que está crescendo.
- Uma carreira tão inesperada quanto te encontrar aqui.
Ela riu. Eram sempre assim os nossos diálogos: Eu perguntava, ela respondia, eu fazia a piada e ela ria. Era mais assim por ela do que por mim. Não é que ela não tivesse interesse, ela só ficava em um estado meio aéreio, talvez pensando no que se repetiria.
O padrão de diálogo se repetiu mais umas três vezes, começou a tocar After Hours e ela falou o que eu tive certeza que ela diria:
- Nossa música...
Então me olhou, como eu soube que olharia, e por fim me beijou, como eu soube que faria, mas não como eu achei que beijaria. Isso, talvez Lucia nem soubesse até aquela vez, era o que regia esses relacionamentos periódicos. Era o primeiro beijo e a primeira noite de cada vez que se reencontram os pares. Nunca era igual, sempre havia algo novo, e quando havia se passado quatro anos, havia muita coisa nova. Lucia não beijava mais como uma criança. Seu beijo tinha a calma e a graça de um beijo adulto. Enquanto Nico dizia “Se você fechasse a porta, a noite duraria para sempre” Lucy e eu vivíamos um momento eterno de portas abertas, como em cada primeiro beijo nosso, e era por isso que essa era a nossa música, embora talvez não soubéssemos ainda disso.
Assim como o Velvet um dia terminou, o show acabou e achei propício colocar Perfect Day da carreira solo do Lou assim que entramos em meu velho apartamento. Já havia esquecido o quão especial era cada primeira noite nossa quando, enfim, começamos. Lucy tinha mais técnica, mais paixão e menos pressa. Ela estava em forma, mas mantinha o apetite. O disco já tinha tocado umas duas vezes quando cansamos. Não precisamos de mais para nos darmos por satisfeitos, e então dormir como bebês.
Quando acordei, não me surpreendi que estivesse sozinho, apesar de que deveria ter ficado. Lucy não era do tipo de sair assim. Acho que ela teve a mesma epifania que tive na noite anterior. Não havia porque nos vermos por mais umas semanas pra nos darmos conta que já havia cansado. Era assim que funcionava, e Lucy precisava daquilo constantemente em sua vida, pra mim funcionava melhor em um período entre-namoros. Pensei em ir ver Solidão aquela noite, mas seria um equívoco. Não estava me sentindo mais só do que em qualquer outra manhã das semanas anteriores, apenas estava demorando para assimilar que, em essência, maravilhosas noites como a anterior com Lucy eram tão solitárias quanto qualquer outra. Lucy voltou a sair com um anterior, e eu segui adiante.
Eram apenas 19h30 e Jim chegava em casa cansado, após uma longa tarde exaustiva. Tv ligada. Seriado de "happy american family" denovo. Aquilo causava um desagrado profundo no íntimo dele. Não bastava ele não aturar aquelas famílias americanas felizes e perfeitas com um casal de filhos, uma caminhonete para viagens e uma tabela de basquete na porta da garagem da casa igual a de todos os outros seriados, porque logo a SUA namorada tinha que ver aquilo? eles não eram uma "família" feliz? talvez não fossem. Ele odiava quando isso acontecia, porque ele não conseguia mais parar de pensar sobre a infelicidade que se escondia nas entrelinhas de sua vida. "Boa noite, amor", disse enquanto tirava os sapatos. "Noite.. como foi o trabalho, querido?" Ela respondeu sem sequer olhar nos seus olhos. Aquele cotidiano infeliz e apático já estava tão agravado em seus dias que ele aceitava da mesma maneira como se aceita uma pedra em um sapato após umas horas. Dói um pouco, mas você se acostuma. As vezes a gente até tenta tirar a pedrinha: "Hey.. Que tal a gente ir no cinema hoje?" "Hoje não, querido.. Vai passar um documentário sobre aquele filme que eu te contei outro dia.." Ela continuava sem olhar nos seus olhos. Decidi sair, talvez uma cerveja em um bar me fizesse melhor. O médico falou que eu não podia tomar álcool junto com os remédios, mas eu sempre considerei isso aquelas especulações de psiquiátras para que ele tenha certeza que você melhorou somente pelo remédio e não por ter tentado viver um pouco. Era sexta, até que o bar tinha um pouco de gente. No momento que entrei, tocava Old Man do Neil Young. Ele sempre me lembrava das épocas de faculdade, maconha e praia com casais de amigos. Foi numa dessas que conheci a Lena. Nós eramos os únicos sozinhos no grupo e ela gostava quando eu tocava Cowgirl In The Sand pra ela. Aconteceu tão naturalmente que eu me senti feliz. Aí foi acalmando até o estado letárgico que se encontra. Ela engordou e está cursando fisioterapia agora, e a gente vive do meu salário de publicitário. Eu sentei no balcão e pedi uma Bud. Dei o merecido respeito ao Young e mantive minha boca calada enquanto ele ecoava. O gosto amargo e gelado da Bud aflorou minha virilidade para uma garota sentada a dois bancos de mim. ela aparentava ter uns 26 anos, tinha um cabelo ondulado e negro com mechas brancas, vestia uma blusa cinza e uma saia jeans e tinha olhos verdes que me fitavam de um modo calculista (que ao mesmo tempo me lembrava o olhar de um esquizofrénico olhando para alguma de suas criações). Alguma coisa em seus olhos pareciam perfurar minha pele e exteriorizar um sentimento de que havia apenas nós dois naquele bar. Ela pulou dois bancos para o meu lado e disse com uma voz que soava como um eco de uma infância perdida: "Eu gostaria de saber quantos bares na cidade têm a sensiblidade para tocar um som tão íntimo como esse.." Tocava agora Wandering Star do Portishead. "Talvez nenhum, ou talvez em qualquer um que tenha um público que procura seu âmago perdido em algum bar.." respondi com alguns segundos de atraso, para engolir a pior parte da cerveja. "Se importa se eu pedir uma garrafa pra gente?" "De maneira alguma." eu realmente não me importava, afinal se eu fosse trair Lena com uma mulher, ainda achava melhor do que ser traído por uma televisão. Ela não dizia uma palavra sem fitar os meus olhos. Conversamos sobre cinema, música, literatura e sexo. A presença dela parecia fazer com que as pessoas deixassem o bar, até que ficamos sozinhos lá. Somente então ela foi embora me deixando sozinho com a Bud. Naquela mesma noite Lena brigou comigo por não ter avisado aonde ia. Passaram-se algumas noites, discutimos mais meia dúzia de vezes, e ela decidiu ir morar com uma colega de faculdade. Lena achava que eu não sabia que ela só via tv enquanto eu estava em casa. Se ela já está com um novo namorado, espero que o cara se importe mais com ela do que eu conseguia demonstrar. Voltei religiosamente àquele bar todas noites seguintes por alguns dias, até que encontrei ela lá denovo. Dessa vez as pessoas já sairam quando viram que ela sentou no banco do lado do meu no balcão, como quem sai por respeito a intimidade alheia ou apenas por sentir a solidão quase perene presente naquele lugar. "Então você sabia que ela tava te traíndo mesmo?" "Como você sabe que ela tava me tra-.. ah, deixa. eu prefiro nem saber. Acho que traiu, ela não conseguia suportar a indiferença que eu tentava transparecer em ver ela só dar bola pra televisão e ela não conseguia ver como aquilo tudo me chateava. "E você ficou feliz em estar solteiro pra poder transar comigo?" "..." Foram 2 garrafas de Vinho do porto durante a noite. Lá pelas duas horas da manhã, perguntei se ela preferia na minha casa ou na dela, mas ela me falou que dava na mesma. Então a gente foi na minha. Eu sempre gostei de fazer com um som ambiente a ver com cada garota. Coloquei Damaged People do Depeche Mode e comecei a beijar o pescoço dela. O mundo nunca fez tão sentido quanto naquela noite, as luzes oscilavam e só o que meus olhos conseguiam manter foco era aquele olhar que me lembravam um lunático observando com pena uma alucinação que não era dele. Na manhã seguinte ela havia ido embora. E eu sabia que ela não voltaria. Ela era a ausência e a presença da solidão. O retrato da minha essência feliz que escorria porta fora enquanto eu ainda dormia e sonhava alegre, sem imaginar que acordaria como se estivesse sem um pulmão. Algumas vezes eu retornei ao bar, e ao encontrá-la sentada no balcão com outro solitário, eu resolvi comprar minha Bud e sair pra deixá-los em paz. A Solidão aparece pra todos, é preciso respeitar a alheia. |
Pro inferno com as tendências, não é mais possível acompanhar cada oscilação
Pro inferno com os receios, é início de ano, e portanto, tempo de não se preocupar.
Canso de me ver reclamando sobre os mesmos problemas, e o simples ato de reclamar das MESMAS coisas já torna os problemas mundanos.
Se faz necessária a mudança em tempos tão entediantes e com tantas novidades previsíveis.
Geralmente nós pensamos em maturidade como uma coisa apenas boa. Fulaninho se expõe demais em seus relacionamentos, ele precisa amadurecer. Fulaninho amadureceu, agora ele sabe se preservar mais. Proclamo agora, portanto, que maturidade é uma faca de dois gumes. Relendo meus textos no tal antigo blog, eu vi como eu escrevia melhor. Talvez eu tenha melhorado um pouco nas rimas, mas percebo como eu tinha mais paixão nas palavras, como eu escrevia com uma fluidez maior. A maturidade e a preservação dos sentimentos, de certa forma também me tornou mais frio. É sozinho nessa agora gélida maturidade, que começo, então, este blog.
Outrora me senti sozinho por falta de companhia, mas com o passar do tempo, consegui companhias. Não foi mais por falta de mulher que me senti sozinho, não que eu tenha virado um galanteador de primeira, mas aprendi a me virar com o que tinha. Achava que então, a solidão passaria, afinal, estaria acompanhado. Errei. Como tantas vezes nessa vida, errei. Eu não poderia errar mais achando que estar acompanhado e se sentir acompanhado eram sinônimos.
Tive um namoro de 3 meses e meio, a paixão foi embora na metade do segundo mês, passei mais um mês pra sentir falta, e então perder. Então, percebi a solidão que me acompanhava sorrateira por esse tempo. Superei a dor, uma vez que já tinha superado dores muito piores, e segui adiante. Quando já estava bem, perdi o controle de tudo, e me apaixonei pela ex-namorada de um amigo meu. Tive que me explicar, explicar o caso, e enfim, ter o aval. Foram duas semanas de paixão intensa (de minha parte, e não sei até quanto recíproca) e caí do céu direto no chão rochoso que, como eu desconfiava, já me aguardava. Olhei pra trás novamente, e a solidão me abanava gentilmente, como no conto que há algum tempo escrevi.
Algum tempo depois, em busca de preencher esse vazio, tive algumas tardes e noites com uma amiga sem muito conteúdo (na verdade, sem nenhum), mas nada que curasse essa tal solidão. Tive alguns momentos com a minha ex, mas nada que curasse a insistente solidão. Cheguei ao absurdo de me encontrar cercado de pessoas, ébrio, com amigos em volta, e ainda assim, sem verdadeira companhia por perto, com exceção da dela: da Solidão. Quisera eu ser imaturo como outrora novamente, para talvez assim poder descrever melhor essa solidão, e ao menos por um tempo, me livrar um pouco dela.
- Location:Home
- Mood:
duh. - Music:Portishead - Mourning Air
